O espelho reflete: que se é. O inefável se mostra: hic et nunc. Mas a câmera espelha o espelho, ela magnifica sua potência de revelateur:
como o espelho, é uma superfície que reflete superfícies, corpos feitos
de luz e de sombras, volumes, texturas; mas ao contrário do espelho- e
nisto ela o excede e o enquadra, cadre do cadre- ela apreende- não:
entreolha- os corpos conservados no líquido amniótico da presença, o
tempo. O espelho pretende ser uma imagem do Eterno, ou capta a imagem
como um estigma do Eterno, vetustez do retrato de família e do
cerimonial galante ; logo, nos apresenta uma imagem falseada ótica e
ontológicamente: fazemos pose para o espelho, aprendemos a encenar , a
mentir diante do espelho ( com). A nos fixar e nos eternizar diante do
espelho, e nos eternizar em um determinado papel, um certo Ego. A
morrer, portanto. O espelho é o anátema da presença; nele, o humano se
afirma e se exalta às custas da exclusão do horizonte de todo sendo ( das in-der-Welt-sein),o tempo.
Alfreda jamais conseguirá ver a Virgem Maria enquanto tiver a si diante do espelho; se tivesse olhos para ver, como nós- que não vemos o que o espelho nos oferece, mas o que a câmera nos vela-, veria o que lhe aparece- às expensas dela- em quase todos os planos do filme: a viração, a luz e a sombra brincando sobre os corpos, um fiapo de música ao longe. Não exatamente o divino - interdição suprema no judaísmo e no
cinema, sobretudo o divino frontalmente, face a face- , mas o único
milagre que nos será dado presenciar sobre a terra: parafraseando
Hölderlin, o rastro do desaparecimento do divino, o que o
divino deixa para trás, ao retornar ao escaninho do Nada. Este evento
se oferece a quaisquer, não necessariamente o homem, basta ter olhos
para ver: um olho mecânico por exemplo, mas fixado no tempo e no espaço absolutamente necessários para testemunhá-lo; como dizia Monteiro: só há um ponto onde colocar a câmera, e é este ponto que é preciso descobrir. Ia
falando... ah , sim, o rastro da ausência do divino: abundância de
significantes sem significado no cinema de Oliveira, plenitude gloriosa-
numinosa?- do signo justamente porque não atrelado ao escopo do simbólico ( Signos banhados na luz gloriosa de sua ausência de explicação, etc)
A câmera vê mais e melhor que o espelho: vê tudo, justamente na medida em que se sabe ( nós a
sabemos) finita, contigüidade dos pontos de vista e de treva: um Todo
feito sobretudo de partes, em sincrônica e sucessiva ordem.Vê tudo por
não aspirar– como o espelho- a de tudo se apoderar e submeter à
autarquia do Ego, seus brasões de família: o selo do Olvido e da
dissolução. E se o espelho merece o status de uma visão verdadeira- de
uma vidência- é quando vira uma câmera, como na projeção final das imagens de Veneza.
O que é
merece ser eternizado, mas somente enquanto situada numa rosa dos
ventos temporal, pretérito imperfeito do subjuntivo, jamais totalmente
presente, em vias de passar e advindo de: “Sempre te
amei”, diz a mulher ao marido. Mas era como se fosse para depois. Para
toda a vida. E eu cuidava que era muito cedo para começar a eternidade”.
A câmera faz justiça ao que é, dá-nos uma visão justa, mostrando-o ao mesmo tempo como o que foi e o que será. A justa visão, a visão dos justos: se
tivéssemos olhos para ver, veríamos o que Alfreda talvez apenas tenha
podido ver à hora em que seus olhos se entrefechavam para sempre; mas aí
já não o pôde dizer, e levou o segredo consigo, como é de praxe em toda sessão de camara obscura, prestidigitação, sessão espírita ou projeção de cinematógrafo: levar o segredo consigo.

Se pudéssemos ver como a câmera, que registra apenas as pegadas, o que ontem não era e amanhã talvez não seja mais, veríamos: que toda entrada e saída de campo equivale a
uma retração e a uma plenitude de ser, a uma efeméride e uma
Eternidade; que todo sorriso é uma epifania, e toda comemoração o átrio
da ruína. Aliás...Alfreda , sem o saber ( pois ainda não sabia ver, ao
menos de forma justa, conforme ao transitivo do divino),
assiste a uma aparição da Virgem: é Marisa Paredes, velha e enlutada
virgem, que entra e sai do campo ao fundo, transparência que se esfuma
na distância da luz e do tempo; e a profundidade de campo nos sugere que
muitos poucos, talvez alguém dotado de uma monstruosa hipermetropia
espiritual, poderia tê-la visto, antes de se encaminhar para nós, e
assim adquirir os contornos de uma figura , um presente, inspirando ao
nosso olhar horizonte e foco. Não, não, era uma miragem...O que é que a
mulher fala mesmo à “aparição” em seu leito de morte? “Parece que foi no
jardim. Lembro-me de si e depois não lembro. Havia árvores em flor, e o
chão em volta delas estava cor de ouro.”
Ps:
Espelho mágico, como em Track of the cat ( o morto na cova) e Vampyr ( o
morto a caminho da cova), nos dá um ponto de vista impossível,
limítrofe: refletido no espelho, transformado agora numa câmera, o olhar
de uma mulher em coma passeia por recantos outrora amados, o teto de um
hotel em Veneza, o Horto das Oliveiras...Vemos por ela, nela: ou somos vistos? Manoel de Oliveira consegue o estranho ( demiúrgico) prodígio de dotar o inanimado de uma
aura ( vide tantos planos enigmáticos de estátuas e objetos, ao longo
de sua obra), a Morte inclusa: de conferir ao mundo, silenciado pela
ausência do divino, o poder de voltar os olhos para nós, e igualmente ver.